Por Paulo Cunha 25 de fevereiro 2026
3 minutos de leitura
Leitor automatico
1x
1,5x
2x

Os ciclos econômicos se repetem há séculos mas o que realmente move o mercado não são os números, e sim o comportamento humano por trás deles

Edição #025

A economia é cíclica. Sempre foi.

Expansão ⭢ Pico ⭢ Recessão ⭢ Recuperação.

Quatro estágios que se repetem há séculos, independentemente de ideologia, presidente ou banco central da moda. O nome pode mudar, o gráfico pode ficar mais sofisticado, mas o movimento é o mesmo: sobe, aquece demais, corrige, recomeça. O curioso é que esses ciclos econômicos são, na verdade, um reflexo quase perfeito dos nossos próprios ciclos emocionais.

Onde estamos agora?

Se olharmos o mapa global com frieza técnica:

  • Estados Unidos vivem um momento próximo ao pico — crescimento longo, mercado de trabalho apertado, ativos esticados e inflação que deixou cicatrizes.
  • China, em ritmo diferente, também colhe os efeitos de anos de expansão intensa, ainda lidando com excessos acumulados.
  • Europa parece presa em uma recuperação lenta e sofrida, incapaz de ganhar tração suficiente para entrar em expansão plena.
  • Brasil e outros emergentes começam a sair de uma fase de recuperação e ensaiam uma expansão, beneficiados por preços relativos mais baixos(com alta das comodities), fluxo internacional e ciclos monetários distintos.

Esse posicionamento não é trivial. Ele é observado com lupa por grandes gestores globais. Fluxos de capital não se movem por simpatia política — se movem por ciclo. É por isso que estamos vendo dinheiro entrando em emergentes. É matemática de ciclo.

A matemática das emoções humanas

No Guia Contra a Estupidez, eu escrevo que: A economia é, no fundo, a matemática das emoções humanas. Alguns dizem que isso é metáfora poética. Eu chamo de descrição prática.

Expansões econômicas não se sustentam apenas por fundamentos técnicos. Elas se prolongam porque as pessoas ficam confiantes. Porque o crédito se amplia. Porque a ganância começa a parecer prudência.

No pico, todos acreditam que “dessa vez é diferente”. Que o crescimento será permanente. Que a tecnologia resolveu o problema dos ciclos. A ganância alonga o ciclo.

Leia também: O banco quebrou, mas a promoção continua irresistível

Da mesma forma, nas recessões, o medo e a desconfiança fazem com que a contração dure mais do que os números justificariam. Mesmo quando surgem sinais evidentes de fundo do poço, as pessoas hesitam. O trauma alonga o ciclo.

O mercado não gira só por juros. Gira por sentimento.

Se fosse apenas uma questão de planilhas, os ciclos seriam mais curtos e previsíveis. Mas o mercado é feito de investidores que:

  • ficam eufóricos quando todos estão ganhando dinheiro. Pior do que perder dinheiro, é não ganhar enquanto seu vizinho fica rico.
  • entram no topo porque “não querem ficar de fora” (FOMO),
  • vendem no fundo porque “não aguentam mais perder” e assim como na euforia, melhor perder junto com todos os demais do que se arriscar a perder sozinho.

A expansão econômica tem sua versão emocional: a euforia.

O pico tem sua versão psicológica: a arrogância.

A recessão traz medo. A recuperação começa com ceticismo. É quase uma curva de humor coletivo.

O Brasil e o desconforto de acreditar

Hoje, muitos investidores locais ainda estão presos emocionalmente ao ciclo anterior. A memória recente de crise fiscal, juros altos e instabilidade institucional ainda pesa. Mas o capital internacional olha para o ciclo, não para o trauma.

Enquanto parte do investidor doméstico ainda está na fase emocional da recessão, o ciclo econômico pode já estar entrando em expansão. E essa defasagem emocional cria oportunidade.

Por que isso importa para você?

Porque entender ciclos econômicos é essencial. Mas entender ciclos emocionais é decisivo. Saber fazer contas é básico. Mas entender por que as pessoas compram no topo e vendem no fundo é estratégico. Saber observa o humor do mercado, a narrativa dominante, o excesso de confiança ou o excesso de medo é uma grande vantagem.

Porque muitas vezes os movimentos mais fortes não acontecem quando os números mudam… acontecem quando as emoções mudam.

A diferença é que você não controla o PIB, nem a inflação global. Mas pode, com esforço, controlar suas reações.

O investidor consciente entende que mercado não é apenas fluxo de caixa descontado. É desejo, frustração, esperança e pânico organizados em gráficos.

Quem aprende apenas a ler balanços entende metade do jogo. Quem aprende a ler a natureza humana entende o resto.

Porque, no fim,

O mercado não oscila porque os números mudam. Ele oscila porque as pessoas mudam de humor.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha