Por Paulo Cunha 18 de fevereiro 2026
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A nova liquidação bancária reacende uma velha lição: taxa alta não é presente, é prêmio de risco. E o maior erro do investidor começa quando ele confunde desconto com oportunidade.

Edição #024

Mais um banco entrou em liquidação em menos de seis meses. Está virando quase rotina no Brasil.

Dessa vez, o Banco Pleno, mais um braço do conglomerado Master. Algo que, para quem vinha acompanhando, não era exatamente surpresa. Em números, são mais R$ 5 bilhões que se somam aos cerca de R$ 45 bilhões já provisionados pelo FGC para cobrir a farra que tomou conta do sistema e, agora, também dos noticiários — com desdobramentos que já alcançam a cúpula política e o Judiciário.

O investidor brasileiro está virando especialista em Fundo Garantidor de Créditos.


Baixar aplicativo, cadastrar conta, validar biometria, aceitar termo e aguardar o depósito. Um curso intensivo, forçado.

É bastante provável que o FGC sofra mudanças de regras. Ele acabou funcionando como um selo psicológico de “risco zero” para investimentos que, tecnicamente, deveriam ser classificados como agressivos. Falaremos disso com mais profundidade nas próximas edições. E sim, já havíamos alertado para o efeito dominó algumas semanas atrás. Quem viu, viu. Quem não viu… talvez tenha aprendido da maneira mais cara.

Mas hoje o foco não é institucional. É psicológico.

A sedução da oportunidade e sentir que está “levando vantagem”

Existe algo profundamente humano, e perigosamente previsível, na maneira como reagimos a oportunidades.

Uma liquidação no shopping atrai multidões. Uma Black Friday cria filas. Um produto com 50% de desconto parece automaticamente bom, mesmo que você nunca tenha precisado dele.

No mercado financeiro, a lógica é a mesma. Só que o preço do erro é maior.

Mesmo após a quebra do Master, muitos investidores continuaram comprando CDBs de bancos do mesmo conglomerado — como Will e Pleno — atraídos por taxas acima da média. Não porque fossem irresponsáveis. Mas porque eram humanos.

Nosso cérebro foi moldado ao longo de milhões de anos para não deixar passar oportunidades. Antes era alimento, água, proteção, acasalamento. Hoje são rendimentos, descontos e “prêmios”.

O problema é que o cérebro ancestral identifica vantagem imediata. Ele não foi treinado para avaliar balanços, índice de Basileia ou concentração de crédito.

Taxa maior não é presente. É prêmio de risco.

Em finanças existe um conceito básico: taxa livre de risco.

No mundo desenvolvido, em dólar, podemos considerar como referência o Treasury americano — hoje próximo de 4,5% ao ano. No Brasil, o Tesouro Selic paga algo em torno de 15% ao ano.

Qualquer investimento que ofereça retorno superior a isso, necessariamente carrega risco adicional. Esse adicional é chamado de prêmio de risco.

Mas essa lógica simples parece evaporar quando a taxa é sedutora.

Se um CDB paga 110% do CDI e outro paga 100%, qual parece melhor? A maioria nem termina a pergunta.

“Está pagando mais.” – Logo, é melhor.

Não. Está pagando mais porque o risco é maior. Se fosse igualmente seguro, pagaria igual.

O cérebro ama desconto.

A psicologia chama isso de heurística da ancoragem.

Quando vemos um número primeiro — 110% do CDI, 15% ao ano, 70% de queda — ele vira nossa referência automática. Tudo passa a ser comparado com essa âncora.

Por isso:

  • Um CDB a 110% parece imperdível.
  • Uma ação que caiu 70% parece barata.
  • Um ativo que saiu de R$ 100 para R$ 30 parece promoção.

Mas queda não é desconto. Pode ser apenas reprecificação de risco.

Leia também: Vício em Ruído: o erro silencioso que destrói mais carteiras do que crises

Quando as ações das Lojas Americanas começaram a despencar, muitos queriam “aproveitar”. O gráfico parecia uma liquidação. O problema é que não era desconto. Era deterioração. Preço caiu porque o risco aumentou.

O investidor seduzido por taxa alta ou ação “descontada” raramente pergunta:

  • O risco aumentou?
  • A qualidade piorou?
  • O prêmio compensa a probabilidade?

Ele pergunta apenas:

“Quanto rende?”

E aqui mora o perigo.

Rendimento é o produto mais eficiente do mercado financeiro. Ele ativa dopamina. Gera sensação de vantagem. Dá a impressão de que você é mais esperto do que a média. Até que o evento acontece.

O investidor consciente aprende a desconfiar do que parece bom demais.

Aprende a perguntar “por quê?” antes de perguntar “quanto rende?”.

Porque o mercado não pune quem erra tentando prever o futuro. Ele pune quem ignora o risco porque estava encantado com o retorno.

Convite final

Se você percebe que a ancoragem tem influenciado suas decisões, talvez valha a pena entender mais profundamente como sua mente funciona — e como ela pode sabotar seus próprios resultados.

No Guia Contra a Estupidez, eu exploro esse e outros vieses que moldam — e muitas vezes prejudicam — a jornada do investidor. Não é sobre prever o mercado. É sobre entender quem está tomando as decisões.

Você pode conhecer melhor aqui:
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Porque, no fim das contas,

O investidor consciente não vence o mercado.


Ele aprende a não ser derrotado pelo próprio cérebro.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha