Por Paulo Cunha 25 de março 2026
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Como eventos globais mudam o ritmo dos juros mas não necessariamente o destino da sua estratégia de investimento

Edição #029

O mercado vinha caminhando em uma direção relativamente clara: Inflação cedendo. Juros no pico, finalmente… o início de um ciclo de cortes, ainda que lento, tanto no Brasil quanto lá fora.

Na semana passada, demos o primeiro passo: a Selic saiu de 15% para 14,75% ao ano. Seria o começo de um movimento mais consistente. Até que o mundo resolveu lembrar que previsões são, no máximo, boas histórias, até deixarem de ser.

O que o petróleo tem a ver com Renda Fixa?

A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã trouxe de volta um velho conhecido dos mercados: o choque no preço do petróleo.

E petróleo mais caro tem um efeito quase automático:

  • Pressiona a inflação
  • Reduz a previsibilidade dos bancos centrais
  • E diminui o espaço para cortes de juros

O que antes parecia um ciclo mais acelerado de queda de juros agora passa a ser visto com mais cautela. Não necessariamente acabou. Mas pode demorar mais.

A frustração silenciosa da renda fixa

Para muitos investidores, especialmente os mais conservadores, havia uma expectativa clara: Capturar ganhos relevantes com títulos pré-fixados ou indexados à inflação de longo prazo, aproveitando a queda de juros.

Essa tese continua válida, muito válida! Mas, talvez não no tempo que se imaginava.

O atraso no ciclo de cortes, mais um, significa, na prática, que esses ganhos podem demorar mais para aparecer. No curto prazo, o caminho pode ser desconfortável. Além disso, há um outro efeito importante acontecendo nos bastidores:

A abertura dos spreads de crédito

Isso impacta diretamente os fundos de renda fixa de crédito privado.

Mesmo sem inadimplência relevante, o simples aumento do risco percebido faz com que os preços desses ativos caiam o que reduz temporariamente a rentabilidade dos fundos. Aqui nasce um desconforto clássico:

Investimentos conservadores rendendo abaixo do CDI.

Leia também: XP Global Conference 2026 e o que o investidor brasileiro ainda não entendeu

O erro mais comum nesse momento

Diante desse cenário, muitos investidores começam a questionar:

“Será que eu deveria sair?”
“Será que escolhi errado?”
“Será melhor esperar?”

E, sem perceber, entram em um padrão bastante conhecido: abandonar a estratégia no meio do caminho.

O problema é que momentos como esse já aconteceram antes.

E, na maioria das vezes, o que vem depois não é continuidade da frustração — mas sim recuperação. E, muitas vezes, rápida.

O mercado não avisa quando vai melhorar

Nos episódios recentes que vivemos, a dinâmica foi parecida:

  • Um evento inesperado gera estresse
  • Os preços se ajustam
  • A rentabilidade fica pressionada
  • E, meses depois, a normalização traz ganhos relevantes

O investidor que sai no meio desse processo não evita o risco. Ele apenas cristaliza o pior momento.

Eventos como guerras, choques de commodities ou mudanças de expectativa fazem parte do mercado. Eles alteram o ritmo. Mas raramente mudam o destino de longo prazo de uma boa estratégia.

O investidor consciente entende que:

  • nem todo movimento de curto prazo exige ação
  • nem toda frustração é erro de alocação
  • e nem toda mudança de cenário exige mudança de plano

Porque, no fim, investir bem não é sobre prever o próximo movimento. As vezes, esse caminho é mais lento — e mais volátil — do que gostaríamos.

Mas ainda assim, é o caminho.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha