Por Paulo Cunha 06 de maio 2026
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Por que o maior risco do investidor não está no mercado mas na tentação de abandonar a própria estratégia diante do curto prazo.

Edição #035

O mercado financeiro tem uma capacidade quase cruel de nos fazer acreditar que o presente vai durar para sempre.

Quando tudo sobe, parece que continuará subindo indefinidamente. Quando cai, temos a sensação de que o desastre será permanente. Nossa mente funciona assim: ela projeta os acontecimentos mais recentes como se fossem uma versão resumida do futuro.

Talvez por isso seja tão difícil seguir uma estratégia de investimentos de longo prazo.

Meses atrás, a Bolsa brasileira vivia um momento de euforia. Fluxo estrangeiro entrando forte, Ibovespa renovando máximas e investidores locais finalmente começando a acreditar que “agora vai”. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos atravessavam um período mais difícil: bolsas realizando lucros, dólar perdendo força e o petróleo pressionando inflação e juros.

Nesse ambiente, muita gente começou a questionar uma das recomendações mais tradicionais de alocação patrimonial: manter uma parcela do patrimônio internacionalizada.

“Por que mandar dinheiro para fora agora?”

“O dólar só cai.”

“A bolsa americana já subiu demais.”

E é justamente aí que mora o problema.

O investidor raramente abandona a estratégia no fundo do poço. Ele abandona quando o cenário recente parece suficientemente convincente para fazê-lo acreditar que o jogo mudou definitivamente.

Quem continuou seguindo o plano — dolarizando aos poucos, mantendo exposição global e respeitando a alocação previamente desenhada — acabou capturando a recuperação recente dos ativos internacionais. Uma recuperação que, naquele momento, parecia tudo menos óbvia.

Porque o mercado raramente recompensa o consenso emocional do curto prazo.

Agora começamos a ver um movimento parecido em relação aos emergentes. Houve uma pausa importante no fluxo para países como Brasil, México e outros exportadores de commodities. Isso naturalmente gera ansiedade, principalmente em um investidor acostumado a interpretar qualquer desaceleração como mudança estrutural de tendência.

Mas olhando o cenário macroeconômico de forma mais ampla, pouca coisa mudou de fato.

Seguimos em um ambiente global inflacionário, com tensões geopolíticas elevadas, commodities relativamente fortes e um mundo que ainda precisa de energia, alimentos e matérias-primas. Historicamente, isso tende a favorecer economias produtoras de commodities — especialmente quando comparadas a mercados já muito caros ou excessivamente esticados após longos ciclos de alta.

Isso significa que emergentes subirão em linha reta? Evidentemente não.

Mercados não se movem assim.

O ponto central é outro: uma estratégia bem construída não deveria depender da emoção produzida pelas últimas semanas.

Leia também: O perigo das paixões: quando sentir demais atrapalha a conquista dos seus objetivos

Em mais de duas décadas acompanhando mercado, uma das poucas coisas que realmente se repetem é justamente o comportamento humano. Os investidores que conseguem os melhores resultados no longo prazo raramente são os que acertam o “timing perfeito”. São os que conseguem permanecer na estratégia quando ela momentaneamente parece desconfortável ou pouco óbvia.

E isso é muito mais difícil do que parece.

Porque somos profundamente míopes diante do futuro. Tendemos a acreditar que o cenário atual será permanente. Projetamos a chuva da semana passada como se fosse o clima definitivo do ano inteiro.

Mas investir se parece muito mais com uma longa viagem de estrada.

Enquanto dirigimos, enxergamos apenas a próxima curva. Às vezes há tempestade. Às vezes céu aberto. Em alguns trechos parece que estamos indo rápido demais; em outros, quase parados.

Mas ninguém consegue enxergar o destino final olhando apenas o para-brisa.

O investidor consciente entende isso. Ele sabe que acompanhar o mercado é importante, mas não ao ponto de permitir que cada oscilação de curto prazo redefina o caminho inteiro.

Porque no fim, a diferença entre construir patrimônio e apenas reagir ao mercado costuma estar menos na capacidade de prever o futuro… e mais na capacidade de continuar seguindo viagem.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha