Por Paulo Cunha 29 de abril 2026
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A paixão pode até impulsionar, mas quando domina, compromete aquilo que mais importa: a clareza na tomada de decisão.

Edição #034

Vivemos em uma época curiosa. Nunca se falou tanto sobre propósito, paixão e intensidade. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil perder a capacidade de pensar com clareza.

Existe uma ideia moderna, quase um mandamento silencioso, de que é preciso estar apaixonado por algo. Pelo trabalho. Por uma causa. Por uma empresa. Por um investimento. Por uma opinião. Quem não está apaixonado… parece estar vivendo errado.

Mas talvez valha um desconforto inicial: e se a paixão, for exatamente o problema?

Uma patologia antiga — esquecida pelo marketing moderno

Muito antes de virar slogan de coach ou campanha publicitária, a paixão já era vista com desconfiança. Na Grécia Antiga, pensadores como Platão tratavam a paixão como uma espécie de desordem da alma. Um estado de passividade, onde o indivíduo deixa de conduzir a si mesmo e passa a ser conduzido por forças externas.

A metáfora clássica era a do cavalo selvagem: Um impulso forte, poderoso, mas que precisa ser domado pela razão.

Sem controle, ele não leva ao destino. Leva ao descontrole.

Na época, essa reflexão estava muito ligada às relações humanas — desejo, amor, atração. Mas o conceito é muito mais amplo.

Porque, no fundo, trata-se de algo simples: perder a capacidade de julgamento quando estamos emocionalmente envolvidos demais.

Hoje, a paixão virou produto

O que antes era visto como risco, hoje virou virtude. Paixão vende:

  • Marcas querem consumidores apaixonados
  • Políticos querem eleitores apaixonados
  • Empresas querem investidores apaixonados
  • Influencers querem seguidores apaixonados

Por quê? Porque a paixão reduz questionamento e aumenta engajamento.

Uma pessoa apaixonada não analisa, ela defende. Não pondera, ela acredita. Isso, no mundo moderno, é extremamente útil… para quem está do outro lado.

O investidor apaixonado é sempre o mais vulnerável

No mercado financeiro, esse comportamento aparece com frequência, muitas vezes, de forma disfarçada de convicção.

É o investidor que:

  • “acredita muito” em uma empresa
  • se apega a um ativo como se fosse parte da sua identidade
  • ignora sinais de risco porque “a tese ainda faz sentido”
  • consome apenas informações que confirmam sua visão

Ele não percebe, mas já não está mais investindo. Está torcendo, assim como em um estádio e futebol, culpa o juiz pelos erros do time que está perdendo.

E quando isso acontece, algo essencial se perde:  a capacidade de mudar de ideia.

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Este é o custo invisível de perder a clareza, pois o maior risco da paixão excessiva não é emocional. É cognitivo.

Ela reduz a capacidade de análise. Distorce percepção de risco. Cria uma falsa sensação de certeza.

No mercado, isso costuma terminar de forma previsível:

  • insistência em posições erradas
  • demora para reconhecer erros
  • perdas maiores do que o necessário

E, no fim, uma sensação comum: “Eu sabia… mas não quis ver.”

Porém, no fundo, a paixão não é o problema. Ela move, engaja, cria energia. Mas, sem controle, ela deixa de ser motor… e vira distração.

Os antigos já sabiam disso. Nós esquecemos. Ou talvez tenhamos sido convencidos a esquecer.

O investidor consciente entende que não pode estar apaixonado para tomar boas decisões. Precisa estar lúcido.

Porque, no fim, nem tudo que acelera o coração ajuda a construir o futuro.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha