Onde o mercado vê risco, às vezes nasce a oportunidade
Em meio à volatilidade, à alta dos juros e às incertezas globais, entender os ciclos do mercado pode ser a chave para identificar oportunidades que muitos investidores deixam passar.
Edição #039
Os últimos meses foram um bom lembrete de como o mercado costuma surpreender a maioria dos investidores. Há pouco tempo, a Bolsa brasileira acumulava altas consistentes, atraía fluxo estrangeiro e renovava máximas sucessivas. O dólar perdia força, os ativos de risco ganhavam tração e parecia que o movimento positivo poderia continuar indefinidamente.
Agora o cenário ficou mais turbulento.
A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã trouxe de volta uma preocupação que o mercado conhece bem: o impacto da alta do petróleo sobre a inflação global. Petróleo mais caro significa custos maiores para transporte, indústria e consumo. Como consequência, cresce a percepção de que os bancos centrais poderão ter menos espaço para reduzir juros na velocidade que se imaginava alguns meses atrás.
No Brasil, o ciclo de cortes da Selic começou recentemente, levando a taxa de 15% para 14,75% ao ano. A notícia, isoladamente, é positiva. O problema é que o mercado já olhava mais adiante. A expectativa anterior era de uma trajetória mais intensa de redução dos juros e de uma taxa terminal significativamente menor. Com a inflação voltando a preocupar e o ambiente internacional mais instável, essa perspectiva passou a ser revisada.
A XP, por exemplo, elevou suas projeções para inflação e juros em 2026, refletindo justamente um cenário de maior cautela. Em outras palavras: os juros começaram a cair, mas talvez não caiam tanto quanto o mercado imaginava há poucos meses.
Essa mudança de expectativa ajuda a explicar por que alguns investimentos que vinham performando muito bem passaram a enfrentar dificuldades.
Os títulos prefixados e indexados à inflação de prazos mais longos, que dependem de uma queda relevante dos juros para entregar ganhos expressivos, perderam força. A bolsa também passou a conviver com mais volatilidade. Não porque as empresas tenham mudado radicalmente de qualidade, mas porque o mercado passou a exigir um prêmio maior para correr risco.
Curiosamente, é justamente nesses momentos que surgem algumas das melhores oportunidades de reposicionamento.
A Bolsa brasileira continua negociando a múltiplos historicamente atrativos quando comparada a mercados desenvolvidos. Nos Estados Unidos, apesar da continuidade dos conflitos geopolíticos, os índices seguem próximos de máximas históricas, o que naturalmente reduz parte da margem de segurança para novas entradas.
No mercado de crédito privado ocorre algo semelhante.
Muitos fundos de renda fixa vêm apresentando retornos temporariamente abaixo do CDI devido à abertura dos spreads de crédito. Traduzindo para uma linguagem menos técnica: o mercado passou a exigir remuneração maior para financiar empresas, o que provoca oscilações negativas momentâneas nos fundos que carregam esses títulos.
Mas é importante entender o que está acontecendo.
Na maioria dos casos, não estamos diante de uma deterioração generalizada da qualidade das empresas. O que ocorreu foi uma reprecificação do risco em um ambiente mais cauteloso. Estudos recentes do mercado mostram que movimentos semelhantes ocorreram em outros ciclos e foram seguidos por recuperações relativamente rápidas quando o fluxo voltou a se normalizar.

O próprio relatório da Absolute Investimentos destaca que episódios recentes de abertura de spreads tiveram muito mais relação com fatores técnicos e fluxo de mercado do que com uma deterioração sistêmica da qualidade de crédito das empresas.
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Por isso, um dos erros mais comuns do investidor conservador é abandonar um fundo de crédito justamente após alguns meses de rentabilidade abaixo do esperado. Frequentemente, é nesse momento que boa parte do ajuste já ocorreu e que o potencial de recuperação começa a se formar.
Naturalmente, isso não significa ignorar riscos. Significa apenas entender que oscilações fazem parte do caminho.
Talvez a principal reflexão deste momento seja outra.
Quando os mercados estavam subindo, muitos acreditavam que a alta continuaria indefinidamente. Agora que a volatilidade voltou, muitos começam a acreditar exatamente no oposto.
O ser humano possui uma enorme dificuldade em enxergar ciclos. Temos a tendência de projetar o presente para o futuro, como se os acontecimentos mais recentes fossem permanentes. Quando tudo sobe, acreditamos que continuará subindo. Quando tudo parece complicado, passamos a acreditar que o cenário difícil será eterno.
O mercado raramente funciona dessa forma.
As oportunidades costumam surgir justamente quando a visibilidade diminui. E os melhores resultados normalmente aparecem para quem consegue atravessar os períodos de incerteza sem abandonar uma estratégia construída com racionalidade.
O investidor consciente entende que ciclos de euforia e preocupação sempre existirão. O desafio nunca foi prever exatamente o próximo movimento. O desafio é permanecer posicionado de forma coerente enquanto o mercado faz aquilo que faz de melhor: surpreender a maioria das pessoas.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha