Por Paulo Cunha 10 de junho 2026
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Entre o entusiasmo pelos gigantes da tecnologia e os juros reais elevados no Brasil, o investidor precisa entender que o futuro não está em escolher um lado mas em construir uma carteira capaz de capturar oportunidades em diferentes cenários.

Edição #040

A humanidade sempre foi fascinada por grandes histórias. Poucas são maiores do que a ideia de colonizar outro planeta.

Talvez por isso a SpaceX tenha se tornado muito mais do que uma empresa. Ela virou um símbolo do nosso tempo. Um tempo em que a tecnologia promete resolver problemas que pareciam impossíveis e em que investidores estão dispostos a pagar bilhões para participar dessa narrativa.

Fundada por Elon Musk, a SpaceX fez algo que parecia ficção científica há poucos anos. Transformou o lançamento de foguetes em uma operação parcialmente reutilizável, reduziu drasticamente custos da indústria espacial e construiu a Starlink, uma rede de milhares de satélites capaz de fornecer internet para praticamente qualquer lugar do planeta. Hoje, seu valor estimado gira em torno de Trilhões e a emissão de US$ 250 bilhões de ações pode torná-la protagonista do maior IPO da história quando finalmente abrir capital.

É difícil encontrar uma empresa que represente tão bem o otimismo dos mercados americanos. Afinal, quando alguém compra participação em uma empresa como a SpaceX, não está comprando apenas resultados atuais.

Está comprando uma visão de futuro. Está comprando a possibilidade de que uma empresa privada se torne uma peça central da infraestrutura global de comunicação, defesa, logística e talvez, um dia, da exploração espacial.

Parece exagero? Talvez…

Mas as grandes bolhas e os grandes ciclos de prosperidade sempre começam exatamente assim: com uma narrativa poderosa o suficiente para convencer investidores de que o futuro será muito diferente do presente.

E convenhamos, poucas narrativas são mais sedutoras do que a de uma empresa que pretende ajudar a levar a humanidade para Marte.

Por aqui participar da oferta é um pouco restrito, mas é possível por exemplo surfar através do ETF BPTIX na NYSE que possui 25% de alocação na empresa. Ou então através do ETF da NASD11 na B3.

Enquanto isso, a milhares de quilômetros dali o Brasil conta uma história completamente diferente. Aqui não falamos de foguetes. Falamos de déficit fiscal, inflação, eleições e juros.

O conflito entre Irã e Estados Unidos reacendeu preocupações inflacionárias globais através da alta do petróleo. Internamente, o cenário fiscal continua pressionado e as eleições começam a aparecer no horizonte dos investidores.

O resultado foi uma nova deterioração das expectativas para juros futuros que produziu um fenômeno curioso.

Enquanto investidores americanos pagam múltiplos cada vez mais elevados por promessas de crescimento, investidores brasileiros podem comprar títulos públicos pagando algo próximo de IPCA + 8% ao ano.

Para colocar em perspectiva, trata-se de uma das maiores taxas reais oferecidas por uma economia relevante no mundo. Uma remuneração que não aparecia de forma tão consistente desde períodos bastante turbulentos da história recente do país.

Leia também: Onde o mercado vê risco, às vezes nasce a oportunidade

Mas existe uma ironia interessante. Quase ninguém parece empolgado com isso. Talvez porque oportunidades recorrentes deixem de parecer oportunidades. Talvez porque o investidor brasileiro esteja tão acostumado com crises que já não consiga enxergar o valor embutido em taxas dessa magnitude. É como alguém que mora em frente ao mar e deixa de notar a paisagem.

O mais interessante é que essas duas histórias não são excludentes. O investidor moderno não precisa escolher entre o foguete e o Tesouro. Entre a promessa de Marte e o desconforto do Brasil.

Hoje é possível participar dos dois mundos. De um lado, empresas que representam algumas das maiores transformações tecnológicas da história humana. De outro, uma das maiores remunerações reais disponíveis no mercado global.

A questão nunca foi escolher apenas uma narrativa. Foi entender que o mundo é grande demais para caber em uma única tese.

O investidor consciente sabe que o entusiasmo excessivo costuma criar riscos invisíveis. Mas também sabe que o pessimismo permanente pode esconder oportunidades extraordinárias.

Enquanto uma parte do mercado olha para o céu tentando imaginar como será a vida em Marte, outra ignora que, aqui na Terra, o Brasil continua oferecendo retornos que muitos investidores ao redor do mundo considerariam difíceis de acreditar.

E talvez seja justamente por isso que diversificar nunca foi tão importante. Porque o futuro pode estar nos foguetes. Mas o retorno também pode estar onde quase ninguém está confiando.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha