O Caso do Banco Digimais: O FGC está virando investimento especulativo?
Com mais uma instituição recorrendo ao Fundo Garantidor de Créditos, investidores começam a enxergar oportunidades onde antes existia apenas proteção. Mas até onde essa estratégia faz sentido?
Edição #042
O mercado financeiro brasileiro tem uma habilidade curiosa: quando surge uma regra criada para proteger investidores, não demora muito para alguém encontrar uma forma de transformá-la em estratégia de investimento.
Estamos assistindo exatamente isso acontecer.
O Digimais deve se tornar a quarta instituição financeira a acionar o Fundo Garantidor de Créditos em menos de seis meses. Antes dele vieram Master, Will e outras instituições menores que já colocaram à prova um sistema que durante décadas foi visto como praticamente inquestionável.
Em termos de tamanho, o Digimais ainda é considerado administrável. Estamos falando de aproximadamente R$ 9 bilhões em depósitos, um valor significativamente inferior aos cerca de R$ 45 bilhões envolvidos no caso Master.
O problema não é exatamente o tamanho do Digimais.
É a repetição do fenômeno.
Porque quanto mais frequentemente o FGC precisa atuar, mais investidores começam a fazer uma pergunta que até pouco tempo atrás parecia desnecessária:
Até que ponto esse sistema continua tão sólido quanto parece?
O FGC continua sendo uma estrutura extremamente robusta e fundamental para o funcionamento do mercado bancário brasileiro. Mas também não é um fundo infinito. Sua existência pressupõe eventos pontuais, não uma sequência contínua de instituições dependendo dele para honrar compromissos.
E é justamente nesse ambiente que surgiu um comportamento curioso.
Alguns investidores mais experientes começaram a olhar para esses eventos não apenas como um risco… mas como uma oportunidade.
No mercado secundário, onde investidores negociam títulos entre si após a emissão original, já é possível encontrar CDBs dessas instituições oferecendo taxas próximas de 150% do CDI.
À primeira vista parece um negócio extraordinário.
Mas existe uma explicação simples.
Quando um investidor decide vender um papel antes do vencimento, normalmente precisa aceitar um desconto no preço para encontrar um comprador. Esse desconto reduz o valor pago pelo novo investidor e, consequentemente, aumenta a rentabilidade projetada até o vencimento.
É o que o mercado chama de deságio.
Em situações normais, esse ganho extra vem acompanhado de um risco proporcional.
Mas os eventos recentes criaram uma distorção.
Como o FGC tem realizado os pagamentos considerando a curva contratada dos títulos, alguns investidores que compraram esses papéis já descontados acabaram obtendo ganhos muito elevados em poucos dias após a intervenção das instituições.
No caso Master, houve situações em que essa valorização ultrapassou 20% em questão de semanas.
Naturalmente, isso começa a gerar um incentivo estranho.
Afinal, um mecanismo criado para proteger poupadores não deveria se transformar em uma ferramenta de especulação.
E justamente por isso cresce no mercado a expectativa de que o FGC revise algumas regras para os próximos eventos.
Uma das possibilidades discutidas seria limitar a forma de cálculo desses pagamentos futuros, reduzindo a possibilidade de ganhos extraordinários decorrentes exclusivamente da intervenção da instituição financeira.
Não existe nenhuma definição oficial nesse sentido até o momento.
Mas seria uma mudança perfeitamente compreensível.
Porque quando o seguro passa a gerar mais interesse do que o próprio investimento, algo provavelmente saiu do lugar.
Por isso, é importante separar duas situações.
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A primeira é a do investidor que já possui aplicações dentro dos limites de cobertura do FGC.
Nesses casos, vender desesperadamente no mercado secundário muitas vezes significa aceitar um desconto relevante e transformar uma proteção existente em uma perda efetiva.
A segunda é a de quem está pensando em entrar agora atraído pelas taxas elevadas.
Aqui o cuidado deve ser redobrado.
Taxas de 140%, 150% ou até mais do CDI não são presentes distribuídos pelo mercado. São sinais de que o risco percebido aumentou substancialmente.
E quando o retorno parece bom demais, geralmente existe uma razão para isso.
O investidor consciente entende que proteção não é sinônimo de oportunidade.
E que uma regra criada para reduzir riscos dificilmente deveria ser o principal motivo para assumir um investimento.
Porque, no fim, o objetivo do FGC nunca foi gerar ganhos extraordinários.
Foi evitar perdas extraordinárias.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha