Banco Will: quando o FGC vira personagem recorrente
Entenda como a liquidação do Banco Will afeta o limite do FGC, o que muda para investidores expostos ao Banco Master e por que o tema deixa de ser um caso isolado no sistema financeiro brasileiro.
Edição #020
O investidor brasileiro está, pouco a pouco, se tornando especialista em um assunto que até pouco tempo atrás parecia distante e quase teórico: como funciona o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A liquidação extrajudicial do Banco Will, decretada pelo Banco Central, é apenas mais um capítulo de uma história que começou com o Banco Master e que agora se desdobra de forma quase pedagógica, ainda que desconfortável.
O Banco Master, vale lembrar, possuía cerca de R$ 40 bilhões em ativos. O Will, por sua vez, é bem menor: algo em torno de R$ 6,5 bilhões. Mas há um detalhe relevante: o Will fazia parte do mesmo conglomerado financeiro, o que muda a forma como o limite do FGC é aplicado.
Na prática, funciona assim: o FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por conglomerado financeiro. Ou seja, os valores investidos no Will se somam aos do Banco Master para fins de cálculo da garantia — desde que os investimentos tenham sido feitos após agosto de 2024, quando o Will foi oficialmente adquirido.

Quem investiu antes dessa data, por outro lado, tem direito a um novo limite de R$ 250 mil, separado. É um detalhe técnico, mas que faz toda a diferença no bolso de quem estava exposto aos dois bancos em momentos distintos.
O procedimento será o mesmo já conhecido no caso do Master:
- Baixar o aplicativo oficial do FGC | Android | IOS
- Realizar o cadastro e validação de documentos
- Confirmar identidade e biometria
- Cadastrar a conta de recebimento
- Aguardar a liberação do termo de cessão
- Após o aceite, o pagamento ocorre geralmente em até 48 horas
No caso do Banco Master, esse processo já está em fase final. No caso do Banco Will, ainda será necessário aguardar o FGC receber a lista oficial de credores e aqui não há um prazo definido. O relógio começa a rodar quando a lista chega.
Quando o problema deixa de ser pontual
O desconforto maior é perceber que o caso Will não parece ser um ponto fora da curva. No mercado, já se comenta de outros Bancos próximos da lista que podem ter problemas por ter tido relações com o Master. Iremos nesta coluna preservar quais são esses nomes, procure seu assessor para mais detalhes.
Mas há um caso que muda completamente de escala: o BRB.
Aqui, o buraco é mais embaixo. Trata-se de um banco público, controlado pelo Distrito Federal. Se houver problemas mais sérios, a solução não passa pelo FGC da mesma forma. O mais provável é um aporte do governo e, em última instância, a absorção por um banco público de grande porte.
E isso importa por um motivo simples: o FGC está cada vez mais pressionado. Inclusive já se fala de um aporte de 30 Bilhões para recompor o caixa. Após os resgates recentes, sua situação ficaria delicada se tivesse que socorrer também uma instituição do porte do BRB. Nesse cenário, o custo não desaparece, ele apenas muda de endereço. E costuma aparecer na forma mais conhecida do brasileiro: impostos.
Quando política e investimento se encontram — contra a nossa vontade
Nesta coluna, tentamos sempre separar o ambiente político das decisões de investimento. Não por ingenuidade, mas por higiene mental.
Mas há momentos em que essa separação se torna impossível.
Quando operações fraudulentas, corrupção e má gestão atingem bancos que servem como veículos de investimento para milhões de pessoas, o problema deixa de ser abstrato. Ele entra direto na carteira do investidor comum.
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O que começa a se desenhar lembra, em escala e profundidade, uma espécie de nova Lava Jato — mas agora nos porões do sistema financeiro, com ramificações políticas na cúpula do Judiciário. É importante dizer: as grandes instituições financeiras não estão envolvidas. O sistema bancário brasileiro, como um todo, segue sólido.
Ainda assim, a pergunta incômoda permanece: até quando o Brasil vai tratar corrupção como um custo operacional aceitável?
Enquanto não houver uma decisão clara — institucional, cultural e moral — de que o país não tolera esse tipo de prática, continuará valendo a lógica do jeitinho, da vantagem pessoal, da captura de estruturas públicas para fins privados.
O Brasil cresce não porque é bem governado, mas porque é grande, rico em recursos naturais, bem localizado e resiliente apesar de si mesmo. Cresce por inércia, não por projeto. E por isso segue sendo, década após década, o eterno país do futuro.
O investidor consciente entende que investir não o exime de ser cidadão e que, em ano eleitoral, votar em quem despreza e se beneficia do dinheiro público é sabotar a própria carteira.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha