Por Paulo Cunha 14 de janeiro 2026
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Muito barulho político, pouco efeito imediato nos mercados e um alerta importante sobre volatilidade, risco e assimetria

Edição #019

Poucos ativos atravessaram a história com a mesma dignidade do ouro.
Impérios caíram, moedas desapareceram, sistemas políticos foram reescritos e o metal amarelo continuou lá, silencioso, inútil para quase tudo… exceto para preservar valor.

Durante séculos, o ouro foi mais do que um ativo: foi o próprio dinheiro. O chamado padrão-ouro limitava o poder dos governos de gastar além do que podiam lastrear. Mas essa limitação sempre foi inconveniente demais para Estados endividados. Em 1971, quando os Estados Unidos abandonaram definitivamente o padrão-ouro, iniciou-se a era das moedas fiduciárias: dinheiro que vale porque alguém decreta que vale.

Desde então, governos podem emitir moeda sempre que o gasto político exige. O resultado nós conhecemos bem: inflação estrutural, ciclos de endividamento e perda contínua do poder de compra. Não por acaso, após anos de juros artificialmente baixos e inflação global elevada, o ouro ressurgiu com força como aquilo que sempre foi: uma reserva de valor em um mundo que perdeu o pudor de imprimir dinheiro. O ouro é escasso por natureza. Não pode ser criado por decreto, não responde a discursos, não vota em eleições. E talvez por isso volte a incomodar.

O problema do ouro físico e a solução do mercado financeiro

Ouro é metal. E metal pesa, ocupa espaço, precisa de segurança, transporte, custódia. Guardar ouro físico nunca foi trivial e nem barato. O mercado financeiro, como sempre, resolveu o problema criando derivados financeiros que representam o ativo sem exigir o cofre.

Hoje, qualquer investidor com conta em corretora pode se expor ao ouro por meio de ETFs. No Brasil, o mais conhecido é o GOLD11, que replica a variação do preço do ouro internacional. E aqui começa a parte que poucos explicam direito.

Por que o GOLD11 rendeu menos que o ouro?

Em 2025, o GOLD11 acumulou cerca de 45% de valorização. Um número impressionante. Mas ainda assim, menor do que a alta do ouro no mercado internacional, que ficou próxima de 63%. Isso não é erro. É matemática. O ouro é cotado em dólar. O GOLD11 é negociado em real.

Quando o dólar cai frente ao real, parte do ganho do ouro em dólar é “comida” na conversão cambial. Esse efeito fica claro quando olhamos para o IAU, ETF de ouro negociado diretamente em dólar na NYSE, que reflete mais fielmente a alta do metal no ano.

Ou seja: o investidor brasileiro que comprou ouro via ETF local ganhou muito — mas ganhou menos do que o ouro ganhou, porque o dólar perdeu valor no período. E se esse mesmo dólar fosse trazido hoje para o Brasil, ele também compraria menos reais. Até aqui, tudo normal. Mas agora entra a parte realmente interessante.

E se fosse possível ter ouro em dólar… sem dólar?

Imagine um cenário diferente: Você está exposto ao ouro cotado em dólar, mas sua posição está 100% em real, com hedge cambial. Ou seja, você ganha com a alta do ouro, mas neutraliza a variação do dólar. Se repetíssemos o movimento de 2025, ouro subindo forte e dólar caindo, esse seria o melhor dos mundos.

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Mas o mercado brasileiro tem uma peculiaridade adicional: juros altos. Ao fazer hedge cambial, o investidor captura o diferencial de juros entre os países, que hoje gira em torno de 9% ao ano.

Resultado hipotético:

Alta do ouro em dólar: 63%

Queda do dólar neutralizada

Diferencial de juros capturado: 9%

Retorno total estimado: acima de 72% em 2025

Isso tudo no mesmo ativo base: ouro. A diferença não está no ativo — está no veículo. Esse ETF, vale dizer, ainda não existe no Brasil. Mas não seria nada surpreendente vê-lo surgir em breve. Quando o investidor começa a entender as engrenagens, o mercado corre para empacotar o produto.

Hoje já existem alternativas semelhantes e com outros ativos, os fundos do gráfico abaixo são de ações Americanas, um em dólar o outro com Hedge + dif. juros.

Gráfico via Mais Retorno

Nada disso invalida o óbvio: O investidor deve ter exposição ao dólar, deve diversificar globalmente e, cada vez mais, considerar ouro e até criptoativos como pequenas parcelas defensivas do portfólio. Essa edição não é um convite à engenharia financeira exótica. É um convite à consciência.

Porque o ponto central é este: não basta escolher o ativo certo — o veículo faz diferença. E muita diferença.

O mesmo ouro pode render 45%, 63% ou mais de 70%, dependendo de como você acessa o mercado.  O investidor consciente entende que proteger patrimônio não é só escolher em qual ativo investir, é entender qual é melhor forma de se investir.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha