Modo Eleições: ON
Pesquisas sobem, pesquisas caem, o mercado reage e o investidor que confunde política com estratégia costuma pagar a conta
Edição #017
Entramos oficialmente em Modo Eleições: ON. As primeiras pesquisas começam a circular, e o roteiro vai se desenhando de forma quase previsível — e ainda assim desconfortável. De um lado, Lula, favorito nas intenções de voto. Do outro, Flávio Bolsonaro, herdeiro de um capital político que perdeu força, mas ainda mobiliza afetos, rejeições e narrativas profundas. Pelo visto, a possibilidade de um nome a direita mais pragmático e com cara de terceira via, deve perder força.
A Bolsa, como sempre, reage no curto prazo ao sabor das pesquisas. Cai quando o mercado não gosta do resultado. Sobe quando vê alguma “esperança” fiscal. Provavelmente seguirá assim: subindo e descendo conforme os números aparecem e conforme cada enredo se desenrola.
Talvez porque nós, seres humanos, sejamos assim. Precisamos de histórias. De mocinhos e vilões. De narrativas que deem sentido ao caos, que organizem o mundo em opostos compreensíveis e nos ofereçam a ilusão de que estamos “lutando por algo maior” — algo que dê propósito à vida e ordem ao desconforto.

Lula versus Bolsonaro.
Estado versus mercado.
Esperança versus medo.
Eficiência econômica versus justiça social.
Brasil versus Alemanha…
Mas a realidade, como sempre, é mais ambígua do que os rótulos permitem.
Um país que vai para a direita… elegendo a esquerda
Há um paradoxo interessante no Brasil recente. As eleições municipais mostraram um país caminhando claramente para a direita, com fortalecimento de pautas conservadoras, pragmáticas e menos ideológicas no plano local. Prefeitos e vereadores eleitos falam mais de orçamento, gestão e eficiência do que de grandes projetos civilizatórios. Ainda assim, Lula segue favorito na disputa presidencial. Talvez porque não votamos apenas com a razão econômica, votamos com memória, ressentimento, medo e afeto. Votamos contra algo antes de votar a favor de alguém.
O investidor precisa entender isso: a política não é linear, e o mercado também não.
Fiscal ruim, mas fluxo bom: outra contradição brasileira
Se olharmos apenas para os fundamentos locais, o quadro inspira cautela.
O cenário fiscal é extremamente preocupante, as âncoras são frágeis, e a previsibilidade institucional segue deteriorada. Em tese, isso seria motivo suficiente para reduzir risco, esperar mais clareza, sentar sobre o caixa.
Mas o mundo não funciona apenas em tese. Do outro lado do tabuleiro, temos um Federal Reserve relaxando os juros, um mercado americano já esticado em valuation, e investidores globais buscando alternativas fora do óbvio. Essa rotação de capital foi uma das grandes teses de 2025… e continua muito viva.
Não por acaso, o Ibovespa entrou claramente em bull market, como destacou recentemente o Santander. Fluxo chama fluxo. Tendência chama tendência. E, historicamente, ficar contra um bull market costuma ser uma péssima decisão, mesmo quando os fundamentos não parecem perfeitos.
Leia também: Instituições, ciclos e o olhar do investidor: o Brasil entre a falha e o potencial
O Brasil nunca foi um investimento sobre perfeição institucional.
Sempre foi e continua sendo um investimento sobre ciclo, preço e fluxo.
2026 promete emoções fortes
E como se não bastasse, 2026 vem carregado:
- Eleições presidenciais polarizadas
- Copa do Mundo
- Calendário recheado de feriados
- Noticiário político constante
- Redes sociais operando no modo histeria
Tudo conspirando para tirar o investidor do eixo. É justamente por isso que o investidor consciente não pode operar no modo reativo. Ele entende que o curto prazo será barulhento, emocional e, muitas vezes, irracional. Porém, que a única âncora real nesse ambiente é a estratégia e o planejamento previamente definidos.
Não é o resultado de uma pesquisa. Não é um discurso. Não é um pregão ruim ou excepcional. É a aderência ao plano que atravessa ciclos.
Esta é a última coluna de 2025. Retornamos no dia 7 de janeiro.
Desejo a você e à sua família um ótimo Natal, um Ano Novo de saúde, clareza e bons investimentos e que 2026, com todas as suas emoções, nos encontre preparados. Boas festas.
— Paulo Cunha