Instituições, ciclos e o olhar do investidor: o Brasil entre a falha e o potencial
Por que o Brasil segue entregando retornos mesmo quando suas estruturas não acompanham?
Edição #016
Há uma frase marcante no livro Why Nations Fail (“Por que as nações fracassam”) de Daron Acemoglu e James Robinson:
“Países prosperam quando suas instituições são inclusivas, e fracassam quando são extrativas.”
Ou, em tradução mais direta: quando o poder serve para enriquecer quem governa, o progresso da sociedade como um todo fica condenado à mediocridade.
Infelizmente, o Brasil continua sendo um exemplo de como instituições que extraem, em vez de construir, limitam o potencial de crescimento. Nos últimos meses, assistimos a episódios que reforçam essa lógica: decisões (ou não decisões) judiciais que se confundem com interesses políticos, o uso da máquina pública para acomodar aliados, o Congresso e o Executivo funcionando como peças de um mesmo tabuleiro, onde o jogo é de influência, não de eficiência. Empresários orbitam o poder, capturam favores, financiam lobbies, se blindam da justiça e perpetuam um sistema em que os “amigos do rei” sempre saem ganhando.
E, ainda assim, o Brasil resiste. Não por virtude institucional, mas pela força do que o país é: um território continental, populoso, com base industrial sólida, abundante em recursos naturais e um ecossistema econômico que, apesar de todos os desvios, funciona pela inércia e pelo talento individual que sobrevive às estruturas disfuncionais.
Entre instituições extrativas e ciclos virtuosos
O que a história mostra é que mesmo países institucionalmente frágeis podem ter bons ciclos econômicos. O Brasil é mestre nisso. Alterna fases de euforia e frustração, sobe quando ninguém acredita e cai quando parece promissor. É justamente essa ciclicidade que hoje volta a se manifestar.
Segundo o relatório “Onde Investir em 2026” da XP Research, o ciclo de cortes de juros ainda está em fase inicial por aqui — o Brasil está atrasado em relação a outros países, o que cria espaço para valorização de ativos locais e uma recuperação mais prolongada.
Além disso, há uma rotação global de capital em curso. Com bolsas americanas em patamares historicamente caros e países desenvolvidos já no fim de seus ciclos de alta, investidores globais começam a buscar alternativas em economias emergentes, onde há crescimento, juros altos e preços mais convidativos.
O olhar do investidor estrangeiro e a miopia do investidor local
Enquanto o investidor brasileiro se prende às manchetes e à instabilidade política diária, o investidor estrangeiro olha para o Brasil por cima da névoa.
Ele não se importa tanto com a fumaça institucional — olha o ciclo, o momentum e a precificação relativa. É por isso que, mesmo com toda fumaça política, o Ibovespa segue entre as melhores aplicações de 2025, beneficiado pelo corte de juros, pela rotação global e por uma recuperação que ainda tem combustível para 2026. Enquanto a maioria paralisa, os grandes movimentos acontecem no silêncio das mudanças estruturais.
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O papel da alocação e o erro do “timing perfeito”
Em momentos assim, cresce a tentação de tentar “acertar o ponto de entrada”. Mas os dados mostram que isso quase nunca funciona. Estudos de longo prazo demonstram que a alocação estratégica de portfólio responde por cerca de 80% do retorno total, enquanto o “timing de mercado” — entrar e sair na hora certa — explica apenas os outros 20%.
Ou seja: o segredo não é prever o momento ideal, mas manter uma estrutura sólida que funcione em qualquer cenário — diversificada entre renda fixa, Bolsa, ativos globais e reais.
O relatório da XP reforça essa ideia: resiliência e liquidez são os novos diferenciais. A capacidade de ajustar o portfólio às mudanças de ciclo é mais valiosa do que qualquer palpite sobre o futuro.
Talvez seja impossível imaginar, hoje, uma solução definitiva para os vícios institucionais do Brasil. Mas a beleza, e a ironia, do mercado é que ele não precisa de perfeição para funcionar. Precisa apenas de assimetria, expectativa e capital disposto a acreditar que o amanhã pode ser menos imperfeito que o ontem.
Enquanto o país tenta resolver suas contradições, devemos fazer o que sempre deu certo: se preparar, se posicionar e esperar o ciclo girar.
Porque, por mais disfuncional que o sistema pareça, o Brasil sempre volta. E quando volta, o mercado costuma recompensar quem não se deixou levar pela fumaça.
O investidor consciente sabe que não se investe em perfeição, se investe em probabilidade.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha