É quando ninguém acredita, que o mercado tem as maiores altas
Por que a Bolsa sobe quando o investidor pessoa física está fora e o que o início de 2026 revela sobre ciclos, fluxo estrangeiro e o erro de tentar acertar o timing
Edição #021
O início de 2026 trouxe um daqueles movimentos fazem muitos ficarem chupando o dedo. A Bolsa brasileira disparou, renovando máximas e pegando muita gente de surpresa. Não porque o cenário ficou subitamente perfeito, mas justamente porque a maior parte das pessoas físicas está fora. Fora por medo da política. Fora por receio de crises globais. Fora por excesso de convicção sobre um futuro que ainda não aconteceu.
Ao mesmo tempo, o dólar caiu para os menores patamares em muito tempo, reforçando um padrão antigo: os grandes movimentos acontecem quando o consenso está olhando para o lado errado. Enquanto o noticiário se ocupa de notícias negativas, o capital se movimenta em fortes ondas positivas.
Os dados de fluxo deixam isso claro. O investidor estrangeiro voltou com força para a B3 neste começo de ano(derrubando o valor do dólar), enquanto o investidor pessoa física traumatizado por política, crises e previsões apocalípticas segue reduzindo exposição. É o velho jogo: quem olha ciclo e preço entra; quem olha manchete hesita.

Essa mesma lógica explica por que o Ibovespa segue como um dos destaques globais no período, apesar de todo o ceticismo local. O capital internacional não está votando em ninguém. Está apenas buscando retorno ajustado a risco e por aqui, ainda temos espaço

Mas o risco sumiu?
Aqui começa a parte incômoda — e necessária. Se o risco tivesse desaparecido, as taxas de juros reais longas já teriam cedido com força. E isso não aconteceu.
Olhando para a curva das NTN-Bs (Tesouro IPCA+), vemos taxas ainda acima de 7% ao ano nos vértices mais longos. Em termos históricos, isso é elevado. Muito elevado. Em ciclos “normais”, bolsa para cima, dólar para baixo e juros reais longos em queda caminham juntos. Mas agora há uma distorção clara: o fluxo estrangeiro entra na Bolsa, mas não entra com a mesma intensidade na renda fixa local. O resultado é um mercado acionário em bull market(Forte Alta) convivendo com um custo de capital ainda pesado.
Como bem apontam gestores como a Kinea e o próprio Stuhlberger, não há gatilho claro para uma queda abrupta dessas taxas, mas também é difícil sustentar, por muito tempo, um mercado de ações forte com juros reais tão altos. Esse carrego pesa. E pesa especialmente para as empresas. Ou seja: o movimento é real, mas não é isento de tensão e volatilidade.

O paradoxo brasileiro de sempre
O Brasil vive esse paradoxo há décadas. Tem ativos baratos, ciclos longos de recuperação e um mercado que sobe quando ninguém acredita. Mas também carrega um custo estrutural alto fiscal, institucional e financeiro. Isso não invalida o bull market atual. Apenas o coloca em perspectiva. Quem espera um cenário perfeito para investir costuma entrar tarde demais. Por isso, não deixe de seguir a recomendação de alocação para o seu perfil, mesmo quando não estiver convicto sobre algum investimento em si.
O erro clássico: tentar acertar o momento
É justamente aqui que o investidor consciente se diferencia. Tentar acertar o timing exato de mercado é uma das tarefas mais ingratas que existem. Não por falta de inteligência, mas porque os maiores movimentos de alta acontecem quando a convicção é baixa e o desconforto é alto.
É quando:
- a política parece confusa demais,
- o noticiário grita crise,
- o dólar já caiu “demais”,
- e a Bolsa parece “cara” só porque subiu.
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Foi assim em vários ciclos passados. E, ao que tudo indica, está sendo assim novamente.
O início de 2026 nos lembra de algo fundamental: o mercado não pede permissão para subir. Ele sobe quando há fluxo, preço e assimetria, não quando há consenso.
Isso não significa ignorar riscos. Significa não permitir que crenças políticas, ruído informacional ou medo do curto prazo sabotem uma alocação bem pensada.
O investidor consciente entende que não precisa prever o futuro. Precisa apenas não ficar de fora quando ele começa a acontecer.
Os grandes movimentos não nascem da certeza. Nascem da dúvida da maioria.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha