Como investir em cenários de incerteza: De que forma as maiores gestoras estão lidando com a instabilidade no Brasil?

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Na última terça-feira, 28 de setembro, o CEO do iHUB Investimentos, Paulo Cunha, conversou com Carlos Simonetti, sócio e diretor de relações com investidores na gestora de recursos Capitânia Investimento. O bate-papo faz parte de uma série de três encontros sobre “como investir em cenários de incerteza?”, entre os dias 28 e 30/9. 

Fundada em 2003, logo com 18 anos de estrada, a Capitânia se consagrou como uma das mais longevas gestoras independentes do país, fazendo a gestão de aproximadamente R$14 bilhões. Sua expertise está ancorada no mercado de renda fixa, crédito privado e imobiliário. 

Na XP, por exemplo, são distribuídos nove fundos da gestora, além de mais três Fundos Imobiliários (FII), que são negociados na B3( Bolsa de Valores Brasileira). Para você que está começando agora no mundo das finanças, é importante dizer que podemos entender o significado de mercado de renda fixa como um mercado de crédito. 

Como os títulos públicos, em sua essência são empréstimos que os investidores fazem aos governos. Outro exemplo são os CDBs, empréstimos do investidor aos bancos e, por último, podemos destacar as debêntures, empréstimos que os investidores fazem às empresas. 

O mecanismo de buscar crédito direto com o investidor é benéfico para ambos os lados e, mais barato para o governo ou as empresas tomarem crédito direto com o investidor, ao invés de recorrer a um banco, e por outro lado, esses títulos podem ser excelentes opções de investimento para o investidor. 

Fundos imobiliários 

Perguntado sobre quais são os principais fundos de investimentos da casa, Simonetti destaca o Capitânia Top, que rendeu 6,60% nos últimos doze meses, e o Capitânia Premium, o qual rendeu 7,68%, contra o CDI que rendeu 2,95% no mesmo período. Na esteira dos Fundos imobiliários, o destaque vai para o fundo Capitânia Securities (CPTS11).

Com início em 2014, o FII CPTS11 possui cerca de R$2,5 bilhões de valor patrimonial, e é um dos fundos mais negociados do segmento. Até 2019, a carteira do fundo era majoritariamente composta por CRIs (Certificado de Recebíveis imobiliários), que são títulos de crédito voltados exclusivamente para o mercado imobiliário. Dentre os mais de 300 fundos imobiliários disponíveis no mercado, cerca de 60% são fundos de CRI.

Após este ano, foi incluída uma cláusula no regulamento do fundo no qual permite comprar um percentual de cotas de outros fundos imobiliários, ampliando assim o leque de atuação.

O efeito negativo que o aumento da taxa Selic gera nos Fundos Imobiliários, deixando-os muitas vezes menos atrativos do que os fundos de renda fixa. “Ao possuir as duas classes de ativos dentro da gestora, é possível visualizar essa migração entre os produtos”, comenta Simonetti. 

Um exemplo deste movimento é visível no fundo Capitânia Top, que é distribuído na XP. Por ser um fundo com liquidação em D+1, ele precisa trabalhar com uma alta disponibilidade de caixa para fazer frente a esse nível de liquidez, portanto, sua rentabilidade esperada é de cerca de CDI+0,5% ou CDI+1%. 

Com a alta da Selic, hoje em 6,5%, a captação deste fundo aumentou significativamente e, inclusive, a gestora pretende fechar o fundo para novas captações assim que seu patrimônio chegue a R$2 bilhões. Este efeito também é percebido no fundo Capitânia Premium, o qual disponibiliza liquidez em D+45, segundo Simonetti. A busca por este fundo de renda fixa também aumentou muito devido à alta da Selic.

Embora nos fundos Capitânia Premium e Capitânia Top seja possível visualizar a captação diretamente no aporte dos cotistas, para de fato observar essa relação de migração dos FIIs para a renda fixa, é preciso verificar o Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários (IFIX B3). Pois,  o índice apresentou queda nos últimos três meses. Portanto, de um lado temos uma procura maior pela renda fixa, ou por fundos de renda fixa, e do outro, a baixa demanda faz com que os preços dos FIIs na média caiam no curto prazo.

Cenário do mercado econômico nos dias de hoje

Simonetti destaca que ainda teremos momentos de estresse pela frente, devido ao fato de haver muito ruído político, às vésperas de um ano eleitoral, há incertezas nas taxas de juros internacionais, principalmente americanas, o que pode impactar diretamente as empresas tomadoras de crédito, uma vez que o mercado de dívida internacional é majoritariamente pré-fixado. 

Paulo Cunha trouxe à tona a crise pela qual os títulos de crédito privado e seus fundos passaram desde meados de 2019, e que se estendeu pelo ano de 2020. Nesta ocasião, os fundos da Capitânia, por serem focados no mercado de crédito privado, sofreram bastante os impactos negativos da precificação dos títulos.

Esse movimento desencadeou um elevado número de resgates por parte dos cotistas, pois muitos acreditavam que a categoria de fundos, por apresentarem baixa volatilidade, eram produtos de baixo risco. Para ter dimensão do tamanho do impacto, por estimativas da provedora de serviços financeiros Quantum Finance, a indústria de fundos de crédito privado observou o seu patrimônio encolher em 38%.

Simonetti, porém, destaca que o mercado de crédito privado nacional está mais protegido do que no passado, uma vez que os títulos em sua maioria são indexados ao CDI e, portanto, acompanham eventuais altas da Selic. Além do CDI, muitos títulos são indexados ao IPCA. No caso de uma corrida para resgates dos fundos, o Banco Central (BACEN), hoje, possui mais instrumentos para atuar no mercado de crédito nacional.

Sendo assim, na sua visão, os fundos de crédito privado não devem sofrer maiores impactos diante de um cenário de maiores incertezas.

Simonetti também destacou que a estratégia da tomada de decisão da gestora é estruturada no que os analistas chamam de “Botton up”, em tradução livre, de baixo para cima, ou seja, primeiramente é analisado criteriosamente os ativos que vão compor as carteiras dos fundos, as empresas etc. Após isso, e em um segundo plano, observa-se as questões macroeconômicas.

Um indicador interessante para títulos de renda fixa é o chamado “carrego”, este indicador nada mais é do que uma foto da carteira atual do fundo projetada para frente, caso o cenário não mude.

Assim, o carrego do Capitânia Top está por volta de CDI+0,90%, e o Capitânia Premium está com um carrego de CDI+1,80%. Este é o retorno esperado dos fundos para os próximos 12 meses.

Você pode acompanhar a live na íntegra no canal da IHub Investimentos, no Youtube: 

Próximos passos da Capitânia

Perguntado sobre os projetos futuros da gestora, Simonetti diz que devem se manter no mercado de crédito privado, no qual é sua área de expertise, não pretendem expandir para outros mercados como o de ações ou até mesmo de fundos multimercados. 

Um viés que a gestora deve explorar é a nova categoria de fundos chamado FIAGRO (Fundos de Investimentos nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), os quais vão investir em terras, Certificados de Recebíveis do Agronegócio – CRAs etc. 

A legislação é recente, mas tudo indica que o FIAGRO terá as mesmas características de um FII, também negociado em bolsa, com isenção de IR sobre os rendimentos, e com a novidade que poderá ter isenção de IR também sobre o ganho de capital.

Ainda são incertezas, pois estamos às vias da reforma tributária, mas vale à pena ficar atento e acompanhar de perto esta nova modalidade de investimento.

A Capitânia e XP acabam de anunciar uma sociedade em que XP adquiriu uma participação minoritária na gestora, uma parceria que acontece desde 2011, ano em que a XP passou a distribuir os produtos da Capitânia para seus clientes. 

Segundo Simonetti, a gestora permanece com total autonomia para conduzir o negócio e a XP contribui ao aportar uma maior inteligência de mercado, sinergia entre as áreas internas da XP, aproximando a Capitânia de emissores e ampliando a distribuição dos produtos da gestora. 

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