O que derrubou o Bitcoin: a pista está fora do cripto
Por que o tombo do Bitcoin revelou mais sobre liquidez, risco global e política monetária do que sobre o próprio cripto.
Tem semana que o mercado fala baixo, com números educados e gráficos comportados. E tem semana que ele fala alto — sem gritar, mas com aquela clareza incômoda de quem está te tirando uma ilusão.
A estreia do Entrelinhas do Mercado foi assim: enquanto muita gente tentava encaixar o mundo numa narrativa bonitinha, o Bitcoin resolveu fazer o oposto e cair de um jeito que não deixa espaço para autoengano. Na quinta (05/02), o ativo chegou a cair 12,6% no dia e foi parar em US$ 63.525. Isso não é “volatilidade normal”; isso é o mercado cobrando preço por confiança, liquidez e posicionamento.
E o ponto mais interessante nem é o Bitcoin em si. É o que ele revelou: quando o mercado global entra no modo defesa, a fantasia do “ativo descorrelacionado” costuma durar pouco. Nesta semana, o cripto pareceu menos uma classe isolada e mais um termômetro sensível do apetite por risco — daqueles que quebram primeiro quando a sala fica sem oxigênio.
Do lado brasileiro, o roteiro foi quase cinematográfico: a ata do Copom saiu, o Ibovespa bateu recorde, o investidor sorriu… e, no dia seguinte, tomou uma realização de respeito. Bem-vindo ao mercado em 2026: emoção em ciclos curtos.
O que realmente mexeu com o mercado
1) Bitcoin: “crise de fé”, alavancagem e o efeito dominó
O Bitcoin não caiu sozinho. A própria Reuters destacou que o movimento veio junto de um clima amplo de aversão a risco e de preocupações sobre política monetária (e seus impactos em liquidez). E, quando a maré vira, o que estava alavancado aparece — rápido. Na segunda (02/02), por exemplo, já se falava em US$ 2,56 bilhões em liquidações no mercado cripto.
Além do preço, outra camada ganhou tração: a “economia ao redor do bitcoin”. Empresas que adotaram cripto como estratégia central viraram amplificadores do movimento. A Strategy (ex-MicroStrategy) reportou um prejuízo trimestral gigantesco de US$ 12,4 bilhões, num contexto em que sua exposição ao bitcoin é parte do enredo.
E a pergunta que ficou pendurada no ar é a que mais importa para o investidor: isso é correção ou mudança de regime? Ninguém tem bola de cristal. Mas quando o mercado começa a discutir números como “US$ 2 trilhões evaporados desde o pico” e “queda semanal de dois dígitos”, vale respeitar o sinal — e reduzir a confiança no improviso.
2) Tech/IA: o risco ficou caro (e o cripto sentiu antes)
Enquanto o cripto derretia, o pano de fundo estava bem tradicional: ações globais escorregando com receio de custo/retorno em IA e com o mercado reprecificando o que ainda merece múltiplo alto. Na quinta, o índice global da MSCI caiu 1% no dia, num movimento típico de “vou diminuir risco e depois eu penso”.
Aqui entra um detalhe que eu considero crucial: quando a “percepção de risco” muda, as correlações sobem. Ativo que parecia dançar sozinho começa a dançar em conjunto. E, nessa semana, o cripto dançou colado na música do restante do mercado.
3) Brasil: Copom, recorde, correção — e o investidor entre o “finalmente” e o “calma”
No Brasil, o Copom publicou a ata da reunião de janeiro e reforçou a ideia de que o ciclo pode virar na próxima reunião, condicionado ao cenário. Isso mexe com tudo, porque mexe com a expectativa de Selic futura — e expectativa, em mercado, é preço hoje.
Na terça (03/02), o Ibovespa fechou em 185.674,42 (alta de 1,58%) e chegou a bater 187.333,83 na máxima intradiária.
Na quarta (04/02), caiu 2,14% e foi para 181.708,23.
Na quinta (05/02), respirou com alta modesta de 0,23%, fechando em 182.127, depois de tocar 184.017 na máxima.
Isso não é incoerência. É o mercado fazendo o que ele faz: testar preço.
No câmbio, a semana terminou com o dólar em R$ 5,254 (+0,08% no dia), com máxima em R$ 5,28 e mínima em R$ 5,23 — aquela oscilação que parece pequena no papel, mas faz diferença para quem tem importação, viagem, hedge, ou simplesmente ansiedade.
4) Bancos e a conversa que não cabe só no balanço
Em meio a tudo isso, o Itaú entregou um número que o mercado respeita: lucro líquido recorrente de R$ 12,3 bilhões no 4T, alta de 13,2% na comparação anual, com leitura de execução forte.
Mas o “subtexto” da semana foi outro: o debate sobre confiança e custo sistêmico voltou com o caso Master/FGC, com declarações públicas citando um rombo de R$ 55 bilhões no fundo garantidor. Isso é o tipo de tema que não vira preço todo dia — mas, quando vira, vira rápido.
5) Lá fora, bancos centrais em pausa (mas com nuances que importam)
Dois movimentos foram didáticos. O Banco da Inglaterra manteve a taxa em 3,75%, mas com votação apertada 5–4, e sinalização de que cortes à frente podem virar “decisão no detalhe”.
E o BCE manteve as taxas e reforçou o discurso de depender de dados, apontando resiliência em meio a um ambiente global desafiador.
Tradução: o mundo está menos “um grande roteiro previsível” e mais “um conjunto de decisões reunião a reunião” — e isso costuma aumentar a sensibilidade do mercado a manchetes.
O que isso muda na prática
- Bitcoin é rápido para subir… e para mostrar quando o apetite por risco sumiu.
Se você tem cripto na carteira, o que esta semana gritou foi gestão de risco: tamanho de posição, tolerância a volatilidade e, principalmente, cuidado com alavancagem (porque ela transforma correção em acidente). As liquidações reportadas dão uma pista do que acontece quando o mercado resolve “limpar” excesso.
- No Brasil, “Selic vai cair” não significa “Bolsa sobe em linha reta”.
O recorde com a ata do Copom e a correção no dia seguinte são um lembrete elegante: quando o consenso fica grande, a realização vem. E ela vem até em mercado forte. - Dólar: não é sobre prever; é sobre entender o gatilho.
Nesta semana, o câmbio ficou mais refém do humor global e dos dados do que de um único fator doméstico. Se o mundo entra em modo cautela, o dólar costuma ganhar demanda, mesmo quando o Brasil está “bem na foto” em alguns pontos. - Bancos: resultado importa, mas narrativa sistêmica também.
Números como os do Itaú ajudam o índice e dão tom para o setor. Mas o debate sobre confiança, regras, garantias e custo de sistema (quando aparece) pode influenciar prêmio de risco. A leitura madura é: acompanhar sem histeria, mas sem ignorar.
O que eu estou observando para a próxima semana
- Se o cripto vai estabilizar ou “procurar um novo piso”: mais do que o preço, eu olho o comportamento — volatilidade, força de repique e sinais de desalavancagem concluída. (Quando a venda forçada acaba, o mercado muda de textura.)
- A relação tech ↔ risco: se o mercado continuar reprecificando IA/tech, o “beta” (sensibilidade ao humor) continua alto — e o cripto tende a sentir.
- Brasil: curva de juros e próximos sinais do BC: a ata do Copom reacendeu apostas sobre o tamanho do corte. Agora, cada dado vira munição para o mercado tentar adivinhar o ritmo.
- Temporada de balanços: ela muda a conversa rápido — principalmente em bancos e grandes pesos do índice.
- Lá fora, o efeito “decisão reunião a reunião” (BCE/BoE): não é o nível de juros apenas, é a comunicação e a divisão interna que mexem com expectativas.
Nós vemos na semana que vem. Tchau
— Daniel Abrahão
Entrelinhas do Mercado
O que realmente mexeu com os preços na semana