Por Paulo Cunha 05 de agosto 2026
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Investir no exterior deixou de ser um privilégio para poucos. Entenda por que diversificar parte do patrimônio em dólar pode ser uma estratégia de proteção e não uma aposta contra o Brasil.

Edição #044

Existe uma contradição curiosa no comportamento do investidor brasileiro. Pesquisas mostram que mais da metade da população afirma não confiar no governo, demonstra preocupação constante com a situação fiscal do país e acredita que a economia seguirá enfrentando dificuldades nos próximos anos.

Mas basta olhar para onde esse mesmo dinheiro está aplicado para perceber algo intrigante. A enorme maioria do patrimônio continua integralmente em reais.

É como alguém que diz não confiar na estrutura de uma casa, mas insiste em manter todos os seus bens dentro dela. Talvez isso explique outro dado igualmente curioso:

Hoje, apenas cerca de 0,6% dos brasileiros possuem algum tipo de investimento internacional. Em comparação, aproximadamente 3% investem diretamente na Bolsa de Valores brasileira e cerca de 30% realizam algum tipo de aposta on-line.

Ou seja, é muito mais comum encontrar alguém tentando acertar o placar de um jogo do que protegendo parte do patrimônio na moeda mais forte do mundo.

Isso acontece justamente quando investir no exterior nunca foi tão simples. Durante muitos anos, possuir uma conta internacional parecia privilégio de grandes investidores. Era necessário abrir contas em bancos estrangeiros, enfrentar burocracia, enviar documentação física e movimentar valores elevados.

Hoje essa realidade mudou completamente… Com pouco mais de cem reais já é possível abrir uma conta internacional por meio de plataformas como XP, BTG, Avenue, Nomad, Wise e diversas outras. O processo leva poucos minutos e pode ser feito pelo próprio celular.

Na prática, abrir uma conta em dólar se tornou tão simples quanto cadastrar-se em uma plataforma de apostas. Existe, porém, uma diferença fundamental entre as duas coisas:

Uma aposta depende de acertar um resultado futuro. A internacionalização do patrimônio não… Ela é uma estratégia de proteção.

Quem mantém parte do patrimônio em dólar não está tentando prever se a moeda vai subir ou cair no próximo mês. Está reduzindo a dependência de uma única economia e de uma única moeda para preservar seu poder de compra ao longo do tempo.

Isso faz ainda mais sentido quando observamos algumas características da economia brasileira.

Nossa inflação historicamente é significativamente superior à dos Estados Unidos. Ao longo das últimas décadas, o real perdeu valor de forma consistente frente ao dólar, refletindo diferenças de produtividade, política fiscal e estabilidade econômica.

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Além disso, existe um comportamento que se repete praticamente em todas as grandes crises internacionais.

Quando o medo aumenta, investidores do mundo inteiro procuram ativos considerados mais seguros. Nesse movimento, o dólar costuma se fortalecer, enquanto mercados emergentes enfrentam aumento da aversão ao risco, desvalorização cambial e maior volatilidade nos ativos locais.

Foi assim na crise de 2008. Na pandemia e em praticamente todos os episódios relevantes de instabilidade global. É justamente nesses momentos que muitos investidores percebem que não estavam comprando dólar. Estavam comprando tranquilidade.

Naturalmente, isso não significa concentrar patrimônio no exterior ou abandonar investimentos no Brasil. O próprio mercado brasileiro oferece excelentes oportunidades em diversos momentos, seja através da renda fixa com juros reais elevados ou de empresas negociadas a preços atrativos.

A questão nunca foi escolher entre Brasil ou Estados Unidos. Foi entender que patrimônio também precisa de diversificação geográfica. Assim como ninguém monta uma carteira investindo em apenas uma empresa, talvez também não faça sentido depender exclusivamente da economia de um único país.

O investidor consciente compreende que internacionalizar parte do patrimônio não é um voto de desconfiança contra o Brasil.

É um reconhecimento de que o mundo é maior do que as nossas fronteiras, e que proteger o patrimônio não significa apostar contra o país onde vivemos.

Significa apenas aceitar uma verdade simples: por melhor que seja uma casa, dificilmente é prudente guardar todos os bens em um único cômodo.

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha