Por Paulo Cunha 01 de julho 2026
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O experimento que enganou milhares de pessoas revela por que investidores continuam acreditando em promessas boas demais para ser verdade

Edição #043

Em 2017, um jornalista britânico resolveu fazer um experimento curioso.

Criou um restaurante chamado The Shed at Dulwich em um site de avaliações gastronômicas. O detalhe é que o restaurante simplesmente não existia.

Não havia cozinha. Não havia garçons. Não havia mesas. Muito menos comida.

Existia apenas um perfil bem construído, fotografias produzidas de pratos feitos com espuma de barbear, tinta e objetos encontrados em casa, além de avaliações falsas publicadas por amigos.

Pouco tempo depois, algo inesperado aconteceu. O restaurante inexistente se tornou o mais bem avaliado de Londres.

Centenas de pessoas tentavam fazer reservas. Jornais queriam entrevistá-lo. Influenciadores comentavam a novidade e muita gente dizia que aquele era o restaurante que todos precisavam conhecer.

Ninguém havia comido lá.

Mas todos acreditavam que deveria ser excelente, porque outras pessoas pareciam acreditar também.

Pode parecer apenas uma história curiosa sobre comportamento humano.

Na verdade, ela explica boa parte do que acontece diariamente no mercado financeiro.

Investimentos também são vendidos por narrativas. Carros importados, relógios caros, viagens internacionais, mansões e uma vida aparentemente perfeita funcionam como os pratos impecáveis do restaurante que nunca existiu. Não provam competência. Apenas despertam uma sensação de autoridade.

Infelizmente, nosso cérebro costuma confundir essas duas coisas.

Durante milhares de anos, seguir quem aparentava possuir mais recursos ou ocupar posições de liderança aumentava as chances de sobrevivência do grupo. Hoje esse mecanismo continua existindo, mas foi capturado pelo marketing.

A autoridade passou a ser construída, muitas vezes, pela aparência de sucesso e não pela capacidade técnica.

Talvez isso ajude a explicar um fenômeno curioso do mercado brasileiro.

Mais de 50 milhões de pessoas fazem apostas regularmente em plataformas de Bets, enquanto pouco mais de dois milhões investem diretamente na Bolsa de Valores.

Também ajuda a entender por que tantas pessoas confiaram recursos em casos como Braiscompany, Rei do Bitcoin, Fictor e tantos outros modelos que prometiam retornos muito acima do mercado.

Em comum, quase todos apresentavam uma narrativa sedutora. Rentabilidades elevadas. Pouco risco. Exclusividade. E alguém aparentemente muito bem-sucedido dizendo que havia encontrado um caminho diferente do restante do mercado.

O problema é que o mercado financeiro raramente recompensa quem encontrou um segredo. Ele recompensa quem assumiu riscos.

Por isso, antes de qualquer investimento, vale dedicar alguns minutos a um exercício simples.

Pergunte a si mesmo:

  • O investimento é fiscalizado pela CVM ou pelo Banco Central?
  • Quem está oferecendo possui certificações reconhecidas e experiência comprovada?
  • A rentabilidade prometida faz sentido quando comparada à taxa básica de juros, hoje próxima de 14,25% ao ano?
  • Existe promessa de retorno garantido ou de risco muito baixo?
  • Esse profissional ou essa estratégia já atravessaram momentos de crise ou surgiram apenas em períodos favoráveis?

Nenhuma dessas perguntas garante que um investimento seja bom.

Mas a ausência de respostas convincentes costuma ser um excelente sinal de alerta.

Existe uma frase bastante conhecida no mercado que continua verdadeira: retornos maiores exigem riscos maiores. Sempre que alguém promete ganhos muito acima da média sem conseguir explicar, com transparência, de onde eles vêm, provavelmente não está oferecendo uma oportunidade excepcional. Está oferecendo uma boa história. E a história do restaurante inexistente mostra justamente isso.

O Caso do Banco Digimais: O FGC está virando investimento especulativo?

As pessoas não foram enganadas porque eram pouco inteligentes. Foram enganadas porque confiaram na reputação antes de verificar a realidade.

O investidor consciente procura fazer exatamente o contrário. Ele desconfia de narrativas muito perfeitas, verifica os fundamentos antes das promessas e entende que patrimônio dificilmente é construído por atalhos.

Porque, no mercado financeiro, a pergunta mais importante quase nunca é “quanto rende?”

A pergunta correta costuma ser: “Por que alguém está me oferecendo isso?”

Nos vemos na próxima edição.

— Paulo Cunha