Venezuela: Quais Impactos e oportunidades de Investimentos?
Muito barulho político, pouco efeito imediato nos mercados e um alerta importante sobre volatilidade, risco e assimetria
Edição #018
A virada do ano foi marcada por uma daquelas cenas que parecem saídas de um roteiro mal escrito, mas que ainda assim, pararam o mundo. A operação envolvendo a Venezuela aconteceu rápido, de forma inesperada, carregada de simbolismo e com uma exposição midiática gigantesca. Em poucas horas, o assunto dominava jornais, redes sociais e mesas de operação. A pergunta veio quase automaticamente: isso muda alguma coisa para os mercados? Para as carteiras?
A resposta curta e incômoda é: muito pouco, ao menos por enquanto…
Não porque a situação não seja grave do ponto de vista político ou humanitário. Mas porque, do ponto de vista econômico, a Venezuela hoje é amplamente irrelevante. O país foi esvaziado ao longo de anos de má gestão, autoritarismo e destruição institucional. Sua produção de petróleo, embora ainda relevante no papel, está longe de ter capacidade operacional para alterar significativamente a oferta global no curto prazo.
Mesmo que o país volte a exportar mais petróleo, isso não acontece da noite para o dia. Seriam necessários bilhões em investimentos, reconstrução de infraestrutura, segurança jurídica mínima e alguns bons anos até que a extração volte a volumes realmente relevantes. Mercado não precifica desejo, precifica capacidade.

No fim das contas, o caso serve mais para acirrar ânimos ideológicos do que para provocar efeitos práticos imediatos. Direita e esquerda se alimentam do episódio como combustível narrativo. Cada lado usa a Venezuela como espelho do que o outro “quer transformar o mundo”. Muito barulho, pouco impacto direto.
Mas o mercado tem um talento especial: transformar qualquer evento em produto: Mesmo com a economia venezuelana ainda fechada e praticamente sem ativos investíveis diretos, Wall Street já começa a desenhar estruturas de exposição indireta ao país. Fala-se em ETFs ligados a ações Venezuelanas ou veículos ligados a uma eventual reabertura econômica. Podemos também ver futuramente produtos indexados a títulos soberanos ou a grandes empresas venezuelanas, caso haja alguma normalização institucional no médio prazo.
E aqui entra um dado que chama atenção: a bolsa local venezuelana subiu mais de 75% nas últimas semanas. Isso não significa estabilidade, muito menos segurança. Significa apenas uma coisa: assimetria extrema. Onde há destruição prolongada, qualquer sinal de mudança gera movimentos violentos para cima ou para baixo.
Também enquanto a Venezuela dominava manchetes, ouro e prata ganharam força, assim como o euro. Não porque o mundo vá acabar amanhã, mas porque risco geopolítico nunca aparece sozinho. Ele costuma ser o primeiro sintoma de algo maior: rupturas, decisões erráticas, quebra de consensos que pareciam sólidos.
O que realmente importa não é a Venezuela em si, mas o que ela sinaliza sobre o ambiente global. Estamos entrando em um período em que linhas antes respeitadas por décadas começam a ser cruzadas. Donald Trump já deixou claro que pretende avançar além de muitos limites tradicionais da diplomacia e da política externa americana. O mundo caminha para um cenário mais transacional, menos institucional, mais imprevisível.
Na América Latina, os desdobramentos ainda são incertos. Uma eventual delação de Maduro — improvável, mas não impossível — seria explosiva para governos de esquerda da região, inclusive no Brasil. Mesmo que isso não aconteça, o simples aumento da tensão já é suficiente para contaminar o debate político em ano eleitoral. O investidor consciente não reage, ele observa o efeito real nos ativos, no fluxo e no risco. Entende que o mundo ficará mais volátil, mais imprevisível e menos civilizado. O futuro não será calmo. Mas também não será o fim do mundo. Será apenas mais um teste de maturidade para separar quem investe com a cabeça de quem investe com o fígado.
Nos vemos na próxima edição.
— Paulo Cunha